CEO da Wiabiliza analisa os impactos da sucessão de lideranças, da escassez de mão de obra e das possíveis mudanças na jornada de trabalho para o futuro do agro.
Artigo retirado da entrevista de Jorge Ruivo para o Canal do Boi, com Valeria Benites. O link está no final do texto.
O agronegócio brasileiro vive um momento de profundas transformações. Ao mesmo tempo em que a tecnologia impulsiona ganhos de produtividade e eficiência, produtores rurais e empresas do setor enfrentam desafios que podem comprometer a continuidade e a competitividade dos negócios.
Entre eles, destacam-se dois temas centrais: a sucessão familiar nas empresas rurais e os impactos das discussões sobre mudanças nas jornadas de trabalho, especialmente o possível fim da escala 6×1.
Em entrevista ao Canal do Boi, Jorge Ruivo, CEO da Wiabiliza, abordou como esses fatores estão diretamente ligados à sustentabilidade das operações, à formação de lideranças e à disponibilidade de mão de obra qualificada para o setor.
Sucessão familiar: um desafio que não pode ser adiado
Para Jorge Ruivo, a sucessão deixou de ser apenas uma questão patrimonial e passou a ser uma decisão estratégica para a sobrevivência das empresas rurais.
Muitos produtores ainda acreditam que a sucessão será naturalmente assumida por um herdeiro. No entanto, a realidade demonstra que nem sempre os sucessores possuem interesse, vocação ou preparo para conduzir o negócio.
Quando não existe planejamento, a transição pode gerar conflitos, perda de produtividade e até impactos financeiros significativos.
Por isso, o processo sucessório deve ser iniciado com antecedência, permitindo que futuros líderes sejam preparados gradualmente para assumir responsabilidades e tomar decisões alinhadas à cultura e aos objetivos da organização.
O déficit de lideranças preocupa o setor
A crescente profissionalização do agronegócio também elevou a necessidade de gestores mais qualificados.
Segundo Jorge Ruivo, existe atualmente uma demanda muito superior à oferta de profissionais preparados para ocupar posições de liderança.
Isso faz com que a formação de sucessores — sejam eles familiares, profissionais internos ou executivos contratados no mercado — exija planejamento de longo prazo.
Uma liderança eficaz não se forma apenas com conhecimento técnico. É necessário compreender a cultura da empresa, desenvolver capacidade de gestão de pessoas e conquistar legitimidade junto às equipes.
Como iniciar um processo sucessório eficiente
Jorge Ruivo destaca três etapas fundamentais para estruturar uma sucessão bem-sucedida:
1. Avaliar o interesse dos herdeiros
O primeiro passo é entender se existe alguém da família realmente disposto a assumir a liderança do negócio.
2. Identificar talentos internos
Muitas empresas possuem profissionais preparados para crescer e assumir posições estratégicas, desde que recebam o desenvolvimento adequado.
3. Buscar executivos no mercado
Quando necessário, a contratação de profissionais externos pode trazer experiências, práticas e conhecimentos adquiridos em outras organizações.
Além disso, modelos de sucessão híbrida — que unem profissionais experientes e futuros sucessores internos — têm apresentado excelentes resultados na redução de riscos durante a transição.
O possível fim da escala 6×1 preocupa o agronegócio
Outro tema abordado durante a entrevista foi a discussão sobre mudanças nas jornadas de trabalho e seus possíveis impactos para o agronegócio e para o setor sucroenergético.
Na avaliação de Jorge Ruivo, atividades ligadas ao campo possuem características muito diferentes de outros segmentos da economia.
Operações agrícolas dependem de janelas específicas de plantio, colheita e processamento, o que exige flexibilidade operacional para aproveitar condições climáticas e ciclos produtivos.
Nesse contexto, alterações que reduzam a disponibilidade de mão de obra ou exijam a ampliação dos quadros de funcionários podem elevar significativamente os custos das empresas.
Escassez de mão de obra pode agravar o problema
Segundo o CEO da Wiabiliza, o Brasil já enfrenta um dos maiores apagões de mão de obra de sua história.
Empresas do agro e da indústria sucroenergética convivem diariamente com dificuldades para preencher vagas técnicas e operacionais. Em muitos casos, posições permanecem abertas por meses sem candidatos qualificados.
Esse cenário tende a se tornar ainda mais complexo caso novas exigências de jornada aumentem a necessidade de contratação de trabalhadores em um mercado que já apresenta escassez de profissionais.
Além disso, fatores como o menor interesse dos jovens por carreiras técnicas e operacionais contribuem para ampliar esse desafio.
O novo cenário das usinas flex
Jorge Ruivo também chamou atenção para uma mudança estrutural que vem ocorrendo no setor sucroenergético: o crescimento das usinas flex.
Essas operações passaram a processar não apenas cana-de-açúcar, mas também milho, reduzindo períodos de entressafra e ampliando a necessidade de mão de obra qualificada ao longo de praticamente todo o ano.
O resultado é uma demanda crescente por profissionais especializados justamente em um momento em que o mercado já encontra dificuldades para suprir suas necessidades de contratação.
O futuro do agro passa pela gestão de pessoas
Seja na sucessão de lideranças, seja na atração e retenção de talentos, o principal desafio do agronegócio continua sendo a gestão de pessoas.
Empresas que investem na formação de sucessores, no desenvolvimento de líderes e em estratégias para enfrentar a escassez de mão de obra estarão mais preparadas para enfrentar um ambiente de negócios cada vez mais competitivo. Mais do que questões operacionais, sucessão familiar, liderança e disponibilidade de profissionais tornaram-se fatores decisivos para garantir a continuidade, a produtividade e o crescimento sustentável do agronegócio brasileiro.
